Par elle-même: Má L.

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Hoje gostaria de apresentar a vocês a Má L., de Ribeirão Preto, cujas peripécias com seus autorretratos eu acompanho há bastante tempo. Ela é mais uma convidada da seção aqui do Libertine onde entrevisto garotas que fazem autorretratos nuas falam sobre como é o processo da autofotografia.

Siga aqui a Má L. no seu Tumblr: lovellogique.tumblr.com.

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Olá Maísa! Eu gostaria que você falasse um pouco sobre você, o que você faz, e como você se iniciou na fotografia

Má L.: Eu sou uma brasiliense de quase 24 anos e estou perdida no interior de SP. Acabei de me formar em publicidade e sou apaixonada por redação e fotografia. Acho que uma coisa completa as outras, nunca achei que uma imagem vale mais do que mil palavras. Se alguém pensa que isso está certo é porque não encontrou as palavras certas, rs.

Devo ter começado a brinca com fotos lá pelos meus 15 anos. Eu já morava em Ribeirão e tinha um celular com timer. A imagem era péssima, mas registrava muitos dos meus momentos mais simples. Acho que também fui influenciada, sem perceber, pelo meu tio, quase da mesma idade que eu. Ele sempre usou o celular para registrar tudo.

Acompanho de longe o que você faz há muito tempo. Como foi a primeira vez se despindo para si mesma?

Má L.

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ML: Eu gosto do meu corpo faz pouco tempo, apesar de ficar nua e me registrar a tanto. Sempre me comparei aos outros, aos outros corpos, seios, barrigas e bundas. Mas outras pessoas viam beleza em mim, então acho que me despi, literalmente, pra tentar achar essa beleza.

Despir o interior, minha alma, meus preconceitos, foram passos mais doídos, tanto que ainda faço isso.

A fotos com nudez eu comecei com 15 anos mesmo, logo que ganhei meu celular, mas não tinha consciência do que eu estava fazendo. Passei a entender uns 4 anos atrás.

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O que você sente de diferença entre a Maísa do primeiro autorretrato e a Maísa dos últimos?

ML: Eu tento lembrar dessa Maísa sempre. Eu era muito frágil, mas tentava me registrar como uma garota emponderada, sexy, segura de si. Eu tinha 15 anos! Claro que não era nada disso. Eu tinha mil inseguranças, não conhecia meu corpo, era boba e tirava fotos num banheiro minúsculo e rosa. Eu também não sabia muito o que fazer, como me posicionar. Parecia tudo muito forçado.

Hoje eu tenho uma segurança muito grande, até me assusto com a mudança. Ultimamente misturo fotos super espontâneas e nada planejadas com pequenas produções feitas no meu quarto. Hoje eu gosto de descobrir as várias personalidades que posso assumir diante da câmera.

Acho que pra resumir a diferença posso dizer que hoje eu sou eu mesma.

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Como você começou os autorretratos? Você já fotografava outras coisas antes ou já começou com o trabalho que você desenvolve atualmente?

ML: Eu gostava de registrar tudo. Tudo mesmo! Sempre amei muros grafitados, comidas diferentes, árvores tortas… Então fotografava. Simples assim. Acho que a primeira foto de mim mesma foi feita escondida no banheiro de casa às 3 da manhã, porque nessa hora eu estou elétrica e cheia de ideias. Deve ter sido assim. Por muito tempo fiz tudo com celular e timer, mas percebi que eu tinha potencial e comprei uma câmera profissional.

Além de me fotografar, também a uso para todas as coisas que gosto, desde aniversário de um ano até formigueiros. Mas acho que tudo começou com os autorretratos e esse narcisismo que era incubado lá atrás.

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Vi uma vez você falando um pouco no Facebook sobre autoestima e autoconhecimento relacionado às suas fotos. Como funciona isso pra você?

ML: Como eu disse, eu era muito insegura, confusa. Me sentia feia, de verdade. Sempre implicaram comigo pelo cabelo cacheado, pelo sotaque, pela magreza… Quando comecei a postar minhas fotos, sem mencionar que eram minhas, vieram os comentários bons, de incentivo, de desejo, de aprovação. Claro que aquilo me fez bem. Mas a minha aprovação sempre valeu mais.

Eu uso a fotografia pra me observar. Entender meus sentimentos, colocá-los pra fora. Ficar nua, principalmente, se tornou um exercício. Me obrigo a me olhar e me amar, do jeito que sou e que estou. Hoje eu recebo todo tipo de comentário sobre minha nudez e meu corpo, mas só retenho aqueles que me ajudam a superar tudo. E quando digo “tudo”, me refiro ao bullying que sofri, mas também tenho depressão, então, conseguir me encantar, mesmo que por causa de uma foto, já é uma terapia incrível!

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Qual o nível de paciência necessária para uma pessoa fotografar a si mesma? Haha!

ML: Depende… Se eu começo a fotografar já com algo em mente preciso de toneladas de paciência, porque vou buscar aquele resultado que está vagando na minha cabeça e não irei parar até ficar perfeito. Sem contar que tem a maravilha de precisar fazer tudo “às cegas”, já que uso timer e não consigo ver o que eu estou fazendo, hahaha!

Mas quando faço por tédio, por uma inspiração repentina e não planejada, não preciso respirar e contar até 10 porque está dando tudo errado. Tanto que as fotos que mais gosto foram as que fiz do nada e pra nada. Tem um ensaio que fiz em exatos 15 minutos porque minha mãe estava chegando em casa e outro que fiz aqui no sofá de casa com minha cachorra dormindo no meu pé, também em uns 15 minutos.

Nesses casos eu me deixo surpreender pelo resultado e não me forço a achar algo perfeito.

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Como funciona seu processo criativo? Existe algo estruturado ou as ideias vêm com os dias?

ML: Gosto de buscar referências, mas tomo cuidado pra não sair imitando tudo. Venho descobrindo o meu estilo próprio, a luz que gosto, a edição que gosto, as minhas poses.
Já aconteceu de uma peça de roupa me inspirar e eu parar na frente do espelho pensando “ok, vou fazer pose X e expressão Y”. Mas prefiro quando eu ligo o timer, saio correndo e tenho só 3 segundos pra parar em alguma pose. Não gosto de estruturar nada hahaha Gosto de pegar uma flor, jogar um lenço, tirar a flor, mudar a luz… Gosto do caos que ninguém verá no resultado final.

Má L.

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Você quer falar algo que ficou faltando? =)

ML: Quero!!
Um dos motivos que me fez continuar com as fotos mesmo sendo bombardeada por comentários negativos foram as pessoas ocultas no anonimato que disseram que eu as representava. Foram diversas mensagens fortes e incríveis dizendo que eu era a força que essas pessoas queriam ter, que eu era o corpo nu que elas queriam conseguir mostrar, que eu passava a segurança e o poder que lhes era negado.

Eu passei a me sentir responsável por pessoas sem nome, sem rosto, mas que definitivamente possuem um coração maravilhoso e me escolheram pra ser para o mundo aquilo que elas ainda não podem ser.

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Eu uso as minhas fotos para me fazer bem, mas também vejo isso tudo como uma forma de falar “vocês também podem!”. Afinal de contas, eu não sou nenhuma artista, não sou famosa, não ganho dinheiro com isso. Eu sou aquela vizinha da rua do lado, sou vítima de muitas opressões, sofro como qualquer um sofre, mas mesmo assim estou me expondo até a última parte da minha alma. Se eu consigo, apesar da depressão e apesar das pressões, acredito que qualquer um consegue.

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6 respostas para “Par elle-même: Má L.”

  1. Welington Guimarães disse:

    Nossa, adorei..

  2. Alan Salle disse:

    Muito bem trabalhada essas fotos…..Bota EXCLUSIVA minha filha

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